Show, don't tell: 20 exemplos de como mostrar em vez de contar

“Show, don't tell”, ou “mostre, não conte”, é o conselho de deixar o leitor ver o que um personagem faz, diz e percebe, em vez de entregar a conclusão pronta. “Ela estava nervosa” conta; “Ela olhou a hora no celular, e depois olhou de novo” mostra, e o leitor descobre o nervosismo sozinho.

O conselho aparece em toda oficina de escrita, mas quase sempre sem exemplos. Aqui você encontra vinte pares de antes e depois para estudar ou copiar, um método em três passos para reescrever uma frase que explica e os casos em que contar é a escolha certa.

Resumo rápido

  1. Contar entrega uma conclusão ao leitor (“bravo”, “bonita”, “melhores amigos”). Mostrar entrega as pistas e deixa o leitor concluir
  2. Mostre o que importa na cena: emoções nas viradas, a primeira impressão de personagens importantes, relações que mudam
  3. Conte quando precisar andar rápido: saltos de tempo, ações de rotina, coisas que o leitor já sabe
  4. Corrigir demais também é um problema. Nem toda emoção precisa de coração disparado e punho cerrado

O que significa “show, don't tell”

Quando você conta, nomeia uma qualidade: bravo, gentil, rico, frio, apaixonado. Quando você mostra, põe na página o que faria alguém pensar nessa palavra. Uma porta de armário batida, uma mão no ombro, um casaco que custou mais que um carro.

A diferença importa porque o leitor acredita no que descobre por conta própria. Se você escreve “Rafael era generoso”, o leitor acredita, um pouco. Se Rafael paga as compras de uma desconhecida e finge que a caixa errou a conta, é o leitor quem decide que ele é generoso, e não esquece mais.

A ideia é antiga. Percy Lubbock já descrevia o romance em termos de “showing” e “telling” em The Craft of Fiction (1921). A frase mais citada, “Não me diga que a lua está brilhando; mostre o reflexo dela num caco de vidro”, costuma ser atribuída a Tchekhov. Na verdade, é um resumo de um trecho de uma carta de 1886 ao irmão, não uma frase que ele escreveu.

As palavras onde o “contar” se esconde

Essas palavras nem sempre significam que você está contando. Mas é nelas que o contar mais se esconde.

  • Rótulos de emoção: bravo, triste, feliz, nervoso, com medo, animado, com ciúme, aliviado
  • Rótulos de caráter: gentil, cruel, corajoso, preguiçoso, inteligente, tímido, arrogante
  • Julgamentos: bonito, feio, incrível, horrível, estranho, perfeito
  • Resumos de relação: melhores amigos, se odiavam, eram muito próximos, não se davam bem
  • Verbos de filtro: sentir, ver, ouvir, notar, perceber, parecer, saber

Os verbos de filtro são os mais traiçoeiros. “Ela sentiu o vento frio” põe uma camada entre o leitor e o vento. “O vento atravessava o casaco dela” tira essa camada.

20 exemplos de show, don't tell

Cada par mostra o mesmo momento duas vezes. Use-os para ver o movimento, não como frases para colar no seu livro.

Emoções

Show, don't tell: emoções
[Nervoso]
Contado: Marcelo estava nervoso antes da entrevista.
Mostrado: Marcelo leu a mesma linha do currículo quatro vezes. Quando a recepcionista chamou o nome dele, levantou tão rápido que a cadeira arrastou no chão.

[Brava]
Contado: Juliana estava furiosa com o irmão.
Mostrado: Juliana pôs o prato na mesa com tanto cuidado que não fez barulho nenhum. — Fala de novo — ela disse.

[Triste]
Contado: Depois do enterro, Rodrigo ficou muito triste.
Mostrado: Rodrigo pôs duas xícaras na mesa antes de lembrar, e depois ficou parado com o coador na mão até o café esfriar.

[Aliviada]
Contado: Patrícia ficou aliviada quando o exame deu negativo.
Mostrado: Patrícia leu o resultado, virou o celular de tela para baixo na mesa e riu à toa.

[Envergonhado]
Contado: Ele ficou envergonhado com o erro.
Mostrado: Ele riu um segundo atrasado, e no resto da reunião não olhou ninguém acima do queixo.

Personagens

Show, don't tell: personagens
[Generoso]
Contado: Rafael era um homem generoso.
Mostrado: Rafael pagou as compras da senhora na frente dele e disse que a caixa devia ter passado tudo duas vezes.

[Arrogante]
Contado: O novo gerente era arrogante.
Mostrado: Durante uma semana, o novo gerente chamou todo mundo pelo nome errado e só corrigiu a grafia do dele.

[Corajosa]
Contado: Fernanda era corajosa.
Mostrado: As mãos de Fernanda tremiam quando ela entrou na correnteza, mas ela continuou até alcançar o menino.

[Preguiçoso]
Contado: Fábio tinha preguiça de cuidar da casa.
Mostrado: Fábio sabia exatamente quantos copos ainda cabiam equilibrados na pilha da pia.

[Tímida]
Contado: Luciana era muito tímida.
Mostrado: Luciana ensaiou o pedido três vezes na cabeça e mesmo assim apontou para o cardápio.

Cenários

Show, don't tell: cenários
[Rico]
Contado: Dava para ver que a casa era de gente rica.
Mostrado: Havia um quarto só para os sapatos.

[Malcuidado]
Contado: O apartamento estava em péssimo estado.
Mostrado: Alguém tinha pintado por cima da mancha de umidade no teto, e ela tinha voltado através da tinta, com o mesmo formato.

[Frio]
Contado: Era uma manhã de inverno muito fria.
Mostrado: No ponto de ônibus, saía fumaça da boca de todo mundo.

[Lotado]
Contado: A estação estava muito cheia.
Mostrado: Na estação, ninguém andava em linha reta.

[Silencioso]
Contado: A cidadezinha ficava muito silenciosa à noite.
Mostrado: À noite, dava para ouvir o sino da igreja do outro lado da cidade.

Relações

Show, don't tell: relações
[Melhores amigos]
Contado: André e Beatriz eram melhores amigos havia anos.
Mostrado: Beatriz pediu para os dois sem perguntar, e André nem tirou os olhos do cardápio.

[Afastamento]
Contado: O casal tinha se distanciado.
Mostrado: Cada um tinha o seu lado da cama e o seu lado da geladeira.

[Paixão secreta]
Contado: Renata estava apaixonada pelo colega de trabalho.
Mostrado: Renata sabia em que dias o Diego levava marmita e em que dias ele almoçava fora, e tinha parado de levar a dela nos dias em que ele almoçava fora.

[Rivalidade]
Contado: Os dois alunos eram rivais.
Mostrado: Os dois tinham parado de levantar a mão na aula. Nenhum queria responder em segundo lugar.

[Desconfiança]
Contado: Ela não confiava no padrasto.
Mostrado: Ela levava o celular para o banheiro.

Como reescrever uma frase que conta em três passos

  1. Encontre a conclusão. Sublinhe a palavra que conta: nervoso, generoso, frio, próximos.
  2. Pergunte o que faria alguém pensar nessa palavra. Se você entrasse no cômodo, o que veria ou ouviria que faria você pensar “ela está nervosa”? Anote duas ou três coisas específicas. Específico quer dizer: algo que só esse personagem, aqui, faria.
  3. Escolha uma e corte o rótulo. Um detalhe forte costuma valer mais que três. Depois apague a palavra que conta, ou mantenha só se o detalhe ficar ambíguo sem ela.

É no passo 2 que a maioria das correções dá errado. “O coração dela disparou” e “ele cerrou os punhos” são coisas que todo personagem faz. Tecnicamente mostram, mas o leitor já leu tantas vezes que funcionam como rótulos. O detalhe que funciona é o que está ligado à vida desse personagem: a linha do currículo, a segunda xícara, o pedido ensaiado na cabeça.

Quando é melhor contar

“Show, don't tell” é uma questão de onde gastar palavras. Mostrar gasta mais. Então mostre onde o momento importa e conte onde não importa.

  • Saltos de tempo. “Passaram-se três semanas” é melhor que três semanas de cenas em que nada muda.
  • Ações de rotina. “Ela se arrumou para o trabalho” basta, a menos que algo no se arrumar importe.
  • O que o leitor já sabe. Se ele viu a briga, uma frase depois pode dizer “depois da briga” sem repetir tudo.
  • Ritmo. Numa cena de ação, uma frase curta que conta (“Era tarde demais”) pode bater mais forte que uma detalhada.
  • Voz. Alguns narradores contam de propósito. Um narrador em primeira pessoa que diz “Naquele verão eu fui um covarde” mostra quem ele é pelo jeito como se julga.

Uma regra comum: mostrar nas viradas, contar no meio.

Os exageros de quem corrige demais

Toda emoção vira parte do corpo. Se toda emoção chega como batimento, estômago ou mandíbula, a cena começa a parecer aula de anatomia. Misture diálogo, escolhas e o que o personagem percebe.

O detalhe é discreto demais. Se o leitor não entende que a segunda xícara significa luto, o momento se perde. Um pouco de contexto por perto (sabemos que a mulher do Rodrigo morreu) torna o detalhe legível.

Nada é nomeado nunca. Às vezes uma frase simples depois do detalhe fecha a ideia. “Ela levava o celular para o banheiro. Não confiava nele, e não queria começar a confiar.” Como o detalhe veio antes, a frase que nomeia já não soa como uma afirmação.

Do contar à cena no TypeTak

O TypeTak é um editor de escrita com IA em que você escreve junto com um agente. Na revisão, o que você quer é achar as frases que entregam uma conclusão e ver como elas ficariam como cena.

  • Uma observação na frase exata que conta. O Feedback deixa marcas de revisão ao lado do trecho de que fala, com um comentário sobre o que mudar e uma reescrita sugerida que você aplica ou ignora.
  • Outros jeitos de escrever uma frase. Ponha o cursor numa linha e escolha outra formulação no menu do cursor. Fique com a que tem mais a sua cara.
  • Os vícios que você repete, à vista. O cartão Estilo do Feedback lista as palavras que você usa demais, e é ali que “sentiu”, “parecia” e outros verbos de filtro costumam se acumular.
Três frases dizem o que Renata e o pai sentem sobre a viagem. A observação sugere mostrar a raiva dele pelas mãos, e na reescrita a culpa dela vira um recuo.

Quais linhas mostrar e quais deixar contadas continua sendo decisão sua. Para escolher quem conta a cena, veja Narrador personagem ou observador?

Perguntas frequentes

O que significa “show, don't tell”?

Significa dar ao leitor ações, falas e detalhes específicos que permitam descobrir um sentimento ou uma qualidade, em vez de nomeá-los. “Ele estava bravo” conta; “Ele desligou e ligou de volta só para desligar de novo” mostra.

Qual é um exemplo de show, don't tell?

Contado: “A casa era de gente rica.” Mostrado: “Havia um quarto só para os sapatos.” A segunda versão deixa o leitor chegar à conclusão por um único detalhe específico.

É sempre melhor mostrar?

Não. Contar funciona melhor em saltos de tempo, ações de rotina, coisas que o leitor já sabe e momentos rápidos. A boa ficção mistura os dois: mostra nas viradas e conta no meio.

Como mostrar emoção sem clichês?

Pergunte o que esse personagem, nessa situação, faria que mais ninguém faria. Um homem de luto que põe duas xícaras na mesa é mais preciso que um nó na garganta. Escolhas e o que o personagem percebe costumam funcionar melhor que reações físicas.

Quem criou o “show, don't tell”?

Ninguém em especial. Percy Lubbock escreveu sobre showing e telling em The Craft of Fiction (1921), e a frase da lua atribuída a Tchekhov resume uma carta de 1886.

Fontes

Showing e telling
Percy Lubbock, The Craft of Fiction (Jonathan Cape, 1921)

Compartilhar esta publicação

Melhore sua primeira frase com o TypeTak agora mesmo

Começar com o TypeTak
Cursos passo a passo

Escrevendo uma web novel passo a passo

→

Acompanhe a criação de “Dizem que sou um mago das trevas, mas só sei cavar terra” no TypeTak, da primeira ideia até o capítulo pronto para publicar.